Há uns anos atras, num dia 02 de janeiro, ví o porteiro do edificio onde minha mãe mora enchotando um cão que tentava, apavorado, se esconder no hall de entrada do prédio. Fui até lá ver e o senhor me disse: "Olhaí, doutora, esse "jaguar" tá desde ontem tentando se esconder aqui e não se manda, acho que ele tá machucado, tem uma cara diferente!" Quando fui ver , o "jaguar" era um magnífico exemplar de Bull Terrier tigrado, totalmente tomado de pânico. Ao me aproximar, falei docemente mas bastante receosa, ele então veio caminhando meio agachadinho e ao tocar meus pés se colocou de barriga pra cima em atitude de total submissão. Fiquei imediatamente fissurada nesse bicho!! Que ternura, que carência!!Botei-o no carro e no caminho ainda passei por alguns outros prédios vizinhos mostrando-o aos porteiros e deixando meu telefone para contato. Para todas as pessoas das quais me aproximava com ele, o bandido chegava se refestelando todo, fazendo mesuras e abanando a cauda, totalmente relaxado ao meu lado como se fossemos conhecidos de longa data num passeio casual.
Quando cheguei em casa, minha velha beagle, a Lana, veio cheira-lo e quase foi destroçada!!! O cão avançou sobre a pobre gorducha como se ela fosse um inimigo mortal a eliminar! Lana saiu com alguns arranhões e claudicante do episódio mas em seguida se recuperou. A partir daí tive de manter o Bull Terrier sempre muito bem contido pois se ele a visse, seria o maior desastre.
Fiquei nessa tensão por duas semanas sem que ninguem me contatasse em resposta aos cartazes afixados nas farmacias e padarias do bairro. Um dia, ao leva-lo para um passeio, um rapaz se aproximou e puxou conversa pois era criador da raça e o cão tinha chamado sua atenção pela ótima conformação de cranio e inserção de orelhas. Eu, que muito pouco entendo de padronagens raciais, apenas agradecí e perguntei a ele se não gostaria de ficar com o cão. Ele mal acreditou que eu quisesse me desfazer de um cão tão bom. Pois é.
No outro dia mesmo, o rapaz foi até meu consultório pegar o cão que saiu na maior euforia, pulando e brincando como se o rapaz tivesse sido seu dono desde sempre. Algum tempo depois, fiquei sabendo por outro criador que uma das características dessa raça admirável é a extrema docilidade com HUMANOS e a intensa agressividade e intolerancia com outros seus semelhantes.
Eis aí o mistério desfeito.
E eu achando que era feita de mel para os cães!!
Nenhum comentário:
Postar um comentário