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quarta-feira, 14 de março de 2012

Recomendações à posteridade

Os últimos meses do ano passado e já os primeiros deste, me levaram de supetão gente na qual eu apostava ter ainda a presença por muitos anos como meu ex-cunhado e bom amigo Mike, a querida Dona Cê, Ramón Portal, meu grande e intimíssimo amigo virtual; meu cunhado Luis Henrique, e meu Gunther... E então, como a morte é sempre inesperada embora nem sempre inoportuna, gostaria de deixar algumas orientações a quem, por caridade ou obrigação, cuidar de meus despojos.
1. Por favor, não me vistam com meu melhor vestido, o mais bonito, o mais chique, o menos usado pois ele é, certamente, o que menos tem a ver comigo e com a ocasião. Se me for no verão, um jeans, uma blusinha e o tênis mais usado me parecem bastante adequados e se no inverno um suéter, um jeans e as indefectíveis botas ficarão de bom tamanho.
2. Procurem deixar meus cabelos da maneira mais semelhante possível a que eu vinha usando ultimamente, sem inovações, por favor. Se eu vier a embarcar por algum mal degenerativo que me prive dos cabelos – NADA DE PERUCAS!!!!! Um lenço amarrado na cabeça é discreto e despojado como cumpre ser a um defunto.
3. Uma maquiagenzinha é sempre bem vinda e aí mora meu único pedido extravagante: Deixem-na a cargo de um profissional da área. Existem pessoas especializadas, os necromaquiadores , que sabem dar uma aparência menos chocante à alvidez macabra que a pele da gente adquire quando mortos. Atenção: Nada de sombra colorida ou batons – nunca usei em vida, não quero usar na morte. Não esquecer as mãos e que elas jamais usaram esmaltes coloridos!!!! Quero-as postas e vazias entrecruzadas sobre meu ventre.
4. Quero estar com brincos de perolas, qualquer bijuteria muito barata, mas as bolinhas solitárias são minha assinatura.
5. O esquife deverá ser o mais barato a disposição. Considero os mais caros e trabalhados um gasto absurdo pois serventia alguma terá além de me fazer de moldura durante algumas horas e depois nunca mais será visto, aliás como eu mesma, espero.
6. Não me agrada a idéia da cremação, mas é algo a ser pensado. Se até o ocorrido eu já tiver conseguido adquirir e quitar um plano, até pode, e se assim acontecer, não quero que minhas cinzas se constituam em um macabro problema a meus descendentes. Elas ficarão a cargo da empresa para dar-lhes o fim necessário. Se não puder ser cremada, quero ir para junto dos ossos de meu pai. Nunca fomos muito próximos em vida, eis que a morte possa então, literalmente, nos aproximar.
7. Não tenho muito que legar a minha descendência agora, que dirá nos próximos, no mínimo 10 (estou muito bem de saúde mas pode ser que o destino resolva interferir) e no máximo 30 anos e pouco me interessa o que será feito das coisas que conseguir acrescentar ao meu escasso patrimônio nesse período.
8. Apesar de atéia, por desistência e desilusão, gostaria que se fizesse uma missa em minha intenção pois sempre admirei e procurei seguir os preceitos cristãos e talvez meus descendentes se confortem com este rito – se é que precisarão de conforto.
9. Façam sempre justiça à minha memória, para o bem e para o mal. Ninguem fica bonzinho só porque morreu mas caluniar alguém que não pode mais se defender é a mais sórdida covardia.
10. Por fim, deixo minha sincera gratidão a todos que me devotaram afeto, que me alcançaram a mão nas adversidades, que tentaram me entender e que me aceitaram com meus inúmeros defeitos durante minha vida pois fizeram-na mais fácil e até feliz.
Gostaria de acreditar que a morte é uma fase que se encerra mas tudo que consigo crer é que com ela, apenas se cumpre e encerra aquele inevitável ciclo, que como tudo neste planeta, tem um começo, um meio e um fim.

Minha "irmã" americana e minha paixão pelos EUA!

    Em 1971 eu implorei a meu pai que me deixasse participar do programa de intercâmbio cultural AFS, American Field Service, onde eu passa...