Houve um tempo, lá pela minha adolescência, em que eu lia tudo que me caísse nas mãos, sem critério, sem indicação, sem um objetivo. Tímida e magrela, percebí que não me sobressairia entre meus pares pelos atributos físicos e intuí que deveria investir em erudição. Assim, juntando o útil ao agradável, me pus a ler com sofreguidão todos os livros dos quais poderia dispor. Li muitos livros pelo volume de páginas – julgava que deveriam ser muito graves e sérios - pela capa, pelo título, por ouvir dizer, por ser moda e ser chique, por diversos motivos. De muitos mal me lembro o conteúdo e de outros me recordo de um aborrecimento infinito como quando aos 13 anos achei de ler "A Convidada" de Simone de Beuvoir. Era um texto angustiado, povoado por gente complicada e triste. Lembro-me de concluir que eram todos aqueles personagens, um bando de malucos que criavam problemas onde eles poderiam perfeitamente não existir e a protagonista, uma mulher chamada "Xaviera", uma idiota completa. Certamente não devo ter tido maturidade ou capacidade intelectual para entender o livro, sua autora e seus personagens problemáticos mas até hoje não me sinto encorajada a relê-lo e ver se consigo remir a má impressão que me deixou. Outra vez, li um livro de Carl Jung, o famoso psicoterapeuta, discípulo e depois dissidente de Sigmund Freud. Chamava-se "Conhece-te pela Psicanálise" nele, Jung perscrutava os sonhos de seus pacientes a luz da psicanálise e associava seus significados com patologias da mente.
Obviamente, terminei o livro tão ignorante quanto quando o comecei e sem ter logrado sucesso com meu objetivo ao iniciar a leitura: conhecer-me melhor. Sinceramente, não conseguia imaginar como poderia, um homem que tivesse sonhado com um pato selvagem nadando num lago de uma região remota da Grécia chamada Tessália, levar o terapeuta a inferir que ele fora traumatizado por uma figura clerical na primeira infância!!!! É claro que esta ciência não é para amadores mas o título do livro é bem convidativo, quem não gostaria de conhecer um pouco melhor a si mesmo? Talvez tenha sido este o motivo de meu avô ter adquirido o livro e certamente o meu ao lê-lo.Passei também por alguns livros sobre o Egito, egiptólogos e antiguidades que meu avô tinha na sua pequena biblioteca, ele era fascinado pelas coisas da África e seus povos antigos. Aliás era nesta biblioteca que eu recolhia a maior parte de meus títulos.
Meu avô e minha mãe liam muito, tinham sempre volumes novos nas prateleiras de madeira da estante em "L" do canto da sala, atrás de uma enorme poltrona bergere em gobelin esverdeado colocada em frente a lareira que, não obstante os frios intensos do inverno da região, jamais era acendida. Ao lado desta poltrona, havia um quebra-luz de pé, de ferro fundido feito por um funcionário da empresa de meu avô e oferecido a ele por ocasião das suas bodas de prata. Este quebra-luz fazia conjunto com um belo protetor de lareira e seus acessórios, também de ferro fundido que hoje em dia está muito bem conservado na casa de minha prima Emilia. 
O livro que mais gostei de ler e posso afirmar ter sido inesquecível, foi "Robinson Crusoé" de Daniel Daffoe, que meu amigo Alcides certa ocasião me emprestou. Ele ganhara o livro do pai e nunca o tinha lido. Uma vez, fui brincar na sua casa mas tive que esperar até que ele terminasse seus deveres para irmos folgar juntos. Enquanto o esperava, comecei a folhar o livro e olhar as poucas gravuras preto e branco que o ilustravam. Não fiquei nem um pouco atraída pelas gravuras mas comecei a ler o primeiro parágrafo com algum desleixo, no entanto fui deslizando suavemente por aquelas frases bem escritas, fui sendo levada tão sutilmente por aquela narrativa clara e emocionada que quando me dei conta, estava já no terceiro capítulo e totalmente envolvida pela descrição cativante do autor.
Eu estava surpresa com o fato de um livro aparentemente sem atrativos pudesse conter um assunto tão interessante. As letras com tipos grandes favoreciam a leitura e o folhear das paginas fazendo com que rapidamente se chegasse a novos capítulos.Foi com Robinsin Crusoé que eu aprendi que ler um livro, mesmo sem gravuras, poderia ser uma experiencia muito prazerosa.
Alguns poderiam dizer que sou tosca, mas quase morri de tédio ao ler Machado de Assis. Sua prosa não me encantou, sua fina ironia não me envolveu.
Talvez ele me tenha sido apresentado em um mau momento – e a primeira impressão sempre fica muito forte. Por força das circunstancias tive que ler "Dom Casmurro" sem ter tido vontade de ler, apenas para realizar um trabalho da disciplina de Portugues e Literatura quando na escola. Durante a leitura, percorria uma página inteira e ao chegar ao fim me dava conta de simplesmente desconhecer o assunto ali contido. Meu espirito literalmente "viajava" por outras plagas enquanto meus olhos percorriam mecanicamente aqueles caracteres e me via obrigada a voltar ao inicio da pagina para então retomar a leitura com atenção redobrada. Isso não deveria acontecer. A pior maneira de se introduzir o hábito da leitura em jovens é força-los a ler obras para as quais não tem maturidade ou que sejam ainda pouco sedutoras para as suas idades. Gostaria de ter tido mais orientação para a leitura pois não teria perdido tanto tempo com livros medíocres ou mesmo inapropriados para o momento.Outro livro que me frustrou foi "Casa de Bonecas" de Ibsen. Era em formato de peça teatral, com o nome do personagem antes de cada fala, o que para mim, parecia tirar a seqüência, a
dramaticidade da coisa. Apesar da pouca idade eu, óbviamente, não imaginava que se tratasse de um livro infantil, apenas o peguei na estante de meu avô porque ouvira dizer que era um clássico e logo, eu precisava incluir sua leitura em meu curriculum literário. Sim, eu tinha uma lista de livros que me propusera encarar até os 14 anos. Dela constavam Victor Hugo e seu "Os Miseráveis", Hemingway e o maravilhoso "O Velho e o Mar", Graciliano Ramos e o triste e estorricante "Vidas Secas" , mais uma série de títulos e autores nacionais e estrangeiros, do momento ou grandes clássicos; todos foram lidos de uma forma ou de outra, fossem bons (muitos) ou chatos de doer(alguns).Mas, o que é um livro chato? É um livro que me faz passar como uma autômata nos tipos de suas páginas, que não me seqüestra, não me arrebata e não me acrescenta, mesmo sendo apenas uma ficção sem outro objetivo que não um mero divertimento tal como a obra inteirinha de Ágatha Christie. As soluções inacreditáveis para os mistérios que a autora articula insultam lógica, fazem pouco da boa-fé de qualquer um que tente honestamente resolver os casos desta senhora.
Miss Marple, ainda vá; mas o Inspetor Poirot era um sujeito presuçoso, esnobe e afetado a ponto de me parecer meio afeminado em suas esquisitices. Ele poderia ser refinado e excêntrico sem tanto pedantismo. Alguns livros que me foram recomendados por amigos e colegas como sendo sensacionais, eu simplesmente não consegui terminar como por exemplo "Fernão Carpelo Gaivota" de Richard Bach; "O Profeta", de Kalil Ghibran e , todos, todos os livros de Paulo Coelho.Ler sempre foi a minha praia. Quando eu era guria, gastava todo meu escasso dinheirinho com revistas em quadrinhos, os chamados gibis. Minha leitura ia de Disney a Marvel Comic’s .
Muitas vezes "aliviava" gibis de meu primo Paulo que tinha uma coleção imensa e nem se importava com os varios numeros "extraviados".Numa lembrança ancestral estou com um jornal nas mãos a recitar um texto inventado na hora, como se o estivesse lendo, para minha irmã mais velha. Ela, que já sabia ler, ria e me chamava de boba. Ler era tão importante que não me aborrecia a galhofa de minha irmã, naquela época eu ainda me achava o máximo.
Na faculdade, repassar os capítulos daquele livro de Anatomia, um calhamaço cheio de ilustrações minuciosas e texto pesadamente técnico, era um suplício. Depois, já formada, quando adquiri um novo compendio da disciplina para atualizar minha literatura e preparar minhas aulas, devorei com sofreguidão todos os tres volumes da obra e me surpreendi frustrada com o término da empreitada.Acho que comigo as coisas funcionam assim: Não produzo sob pressão.
Quando tínhamos sete anos meu avô Pedro deu a cada um de seus netos a coleção "O Mundo da Criança".
Eram uns 10 ou mais volumes contendo poesias da primeira infancia, mundialmente conhecidas. Tinha também histórias clássicas como as dos Irmãos Grimm, de Hans Christian Andersen e as fábulas de Esopo, todas versificadas e acrescentadas de ilustrações lindas, com uma aura de magia e encantamento que até hoje, sua lembrança me traz. Minha mãe me mostrava aquelas figuras e lia os versos na hora da janta enquanto tentava me fazer comer, tarefa que lhe ocupava um bom tempo pois naquela época comer ainda não fazia parte da minha tríade de prazer.
No Natal de 1966, minha irmã e eu ganhamos de nosso pai uma enciclopédia ilustrada chamada "Delta Junior". Eram 12 volumes que tratavam de todos os assuntos que se pudesse imaginar com uma abordagem bastante objetiva e clara. Foi esta enciclopédia o ponto de partida para a busca de mais informações sobre temas que ali me instigaram, a base para novas explorações, a fonte da curiosidade. Era ricamente ilustrada por fotos, desenhos e - sempre isso - os seus tipos eram grandes. Seus textos eram permeados de ilustraões que, sempre legendadas, induziam a leitura àqueles que apenas a folheassem.
Outra coleção de livros que me encantou foi "Nosso Universo Maravilhoso". Uma obra que dava forte ênfase a história universal, relatando como num romance, toda a história da humanidade desde a antiguidade dos gregos e romanos, suas lutas, seus deuses e mitos, passando pela Idade Média até a história moderna e contemporânea inclusive com uma interessante sinópse da II Guerra Mundial. Se tivesse que descrever seu layout diria que era muito semelhante ao que temos hoje em um site de história na internet: Muita cor, desenhos atraentes, fotos clássicas, textos envolventes que se apossavam de nosso espírito e realmente o remetiam ao universo maravilhoso.
Entre os livros que me divertiram está um dicionário escolar que pertenceu à minha mãe.
Além das letras com a grafia antiga, o livro tinha gravuras da época, algo totalmente vintage. Lembro-me que na ilustração do verbete "casa" aparecia uma construção de arquitetura neoclássica, cheia de arabescos e colunas, isso é, columnas e na legenda dizia "casa moderna"!
No verbete esgrima, havia o desenho de um indivíduo de bigodinho de pontas reviradas posando com umas roupas que pareciam ceroulas muito justas numa pose afetada. Vestia um plastron estofadinho, mascara de proteção sob o braço esquerdo e na mão direita, segurando perfilado junto ao rosto, o florete. Era tudo tão antigo e hilário!!!
Nos tempos de colégio, tinhamos os "Questionários". Eram cadernos passados entre as meninas onde cada pagina trazia uma pergunta que poderia ser muito inocente ou carregada de malícia adolescente tal como "Diga as tres coisas que tu mais gostarias de estar fazendo agora". Bom, daí saiam inusitadas respostas, desde algumas picantes das meninas mais - como diria minha mãe - "sabidas", até algumas ingenuamente honestas das meio bocós como eu que respondí: Comer, dormir e ler. Hoje em dia eu talvez ainda escrevesse estas mesmas palavras mas estritamente nesta ordem: Ler, comer e dormir.
Eram uns 10 ou mais volumes contendo poesias da primeira infancia, mundialmente conhecidas. Tinha também histórias clássicas como as dos Irmãos Grimm, de Hans Christian Andersen e as fábulas de Esopo, todas versificadas e acrescentadas de ilustrações lindas, com uma aura de magia e encantamento que até hoje, sua lembrança me traz. Minha mãe me mostrava aquelas figuras e lia os versos na hora da janta enquanto tentava me fazer comer, tarefa que lhe ocupava um bom tempo pois naquela época comer ainda não fazia parte da minha tríade de prazer.
No Natal de 1966, minha irmã e eu ganhamos de nosso pai uma enciclopédia ilustrada chamada "Delta Junior". Eram 12 volumes que tratavam de todos os assuntos que se pudesse imaginar com uma abordagem bastante objetiva e clara. Foi esta enciclopédia o ponto de partida para a busca de mais informações sobre temas que ali me instigaram, a base para novas explorações, a fonte da curiosidade. Era ricamente ilustrada por fotos, desenhos e - sempre isso - os seus tipos eram grandes. Seus textos eram permeados de ilustraões que, sempre legendadas, induziam a leitura àqueles que apenas a folheassem.
Outra coleção de livros que me encantou foi "Nosso Universo Maravilhoso". Uma obra que dava forte ênfase a história universal, relatando como num romance, toda a história da humanidade desde a antiguidade dos gregos e romanos, suas lutas, seus deuses e mitos, passando pela Idade Média até a história moderna e contemporânea inclusive com uma interessante sinópse da II Guerra Mundial. Se tivesse que descrever seu layout diria que era muito semelhante ao que temos hoje em um site de história na internet: Muita cor, desenhos atraentes, fotos clássicas, textos envolventes que se apossavam de nosso espírito e realmente o remetiam ao universo maravilhoso.Entre os livros que me divertiram está um dicionário escolar que pertenceu à minha mãe.
Além das letras com a grafia antiga, o livro tinha gravuras da época, algo totalmente vintage. Lembro-me que na ilustração do verbete "casa" aparecia uma construção de arquitetura neoclássica, cheia de arabescos e colunas, isso é, columnas e na legenda dizia "casa moderna"!
No verbete esgrima, havia o desenho de um indivíduo de bigodinho de pontas reviradas posando com umas roupas que pareciam ceroulas muito justas numa pose afetada. Vestia um plastron estofadinho, mascara de proteção sob o braço esquerdo e na mão direita, segurando perfilado junto ao rosto, o florete. Era tudo tão antigo e hilário!!!Nos tempos de colégio, tinhamos os "Questionários". Eram cadernos passados entre as meninas onde cada pagina trazia uma pergunta que poderia ser muito inocente ou carregada de malícia adolescente tal como "Diga as tres coisas que tu mais gostarias de estar fazendo agora". Bom, daí saiam inusitadas respostas, desde algumas picantes das meninas mais - como diria minha mãe - "sabidas", até algumas ingenuamente honestas das meio bocós como eu que respondí: Comer, dormir e ler. Hoje em dia eu talvez ainda escrevesse estas mesmas palavras mas estritamente nesta ordem: Ler, comer e dormir.