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quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Dona Cê

Ela é a pessoa com a maior capacidade de amar que eu já tive a felicidade de conhecer. Uma mulher admiravel e em qualquer circunstancia, inigualável. A compreensão e compaixão que habitam seus princípios a colocam perigosamente como vítima fácil de vigaristas e aproveitadores. Para se ter uma idéia de sua bondade, reporto uma lembrança antiga: Certa ocasião, estavamos assistindo um documentario sobre as atrocidades nazistas durante a II Grande Guerra, quando reparei uma expressão de profundo pesar em seu rosto e um balançar lento e desanimado de cabeça como se quisesse negar algo que se passava em sua mente.
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Sorrí-lhe e perguntei no que pensava, apostando que seu coraçãozão deveria estar sendo devastado de dor e piedade por aqueles pobres diabos prisioneiros nos campos de extermínio. Para minha surpresa, ela disse que morria de pena de Hitler, ele tinha sido tão cruel, inflingiu tanto sofrimento a gente inocente que certamente deveria estar ardendo no inferno, sem ter uma única prece ou pensamento caridoso que lhe alcançasse um lenitivo e por isso, o incluiria em suas orações. Acho que Dona Cê é a única pessoa, neste mundo que se lembrou de rezar pela alma de Hitler.
Sim senhor, essa é Dona Cê. Uma mulher incansável. Certa vez, comentavamos as dificuldades que as mulheres tinham nas lides domésticas a tão poucos anos atrás. Eu sempre detestei as artes domesticas, jamais tive vocação de dona de casa e preferia pegar num cabo de enxada a ter que encarar um fogão. Muitas e muitas vezes ela cozinhou para mim e meus filhos e eu sei que o fazia com satisfação. Quando iamos a um jantar e meu marido gostava de um prato, eu corria para pegar a receita - para levar para a Dona Cê, obviamente. Tendo ela tido cinco filhos seus mais uma adotiva, e sendo professora primaria de escola do interior, se desdobrava para atender com eficiência suas atribuições. Num domingo quente de dezembro, a familia tinha almoçado cedo, a cozinha recém fora limpa e estava pronta pra tirar uns minutinhos de sono quando vê, numa nuvem de poeira, se aproximar um carro na estrada. Reconheceu de longe a perua de um cumpadre (eram cinco) que, pelo horario de chegada, deveria ter planos de almoçar ali. Ela correu para abrir o portão da propriedade e de passagem pelo galinheiro já foi pegando um galo pelo pescoço para acompanhar o arroz que decidiu ser, no improviso, o menu do almoço para pelo menos mais oito bocas famintas entre adultos e crianças. Ela não se cansava de agradar a todos, no que era sempre muito bem sucedida.
Outra vez, já morando na capital, cheguei em sua casa, de volta da faculdade para encontrar seu filho pois sairiamos juntos e a ví desgostosa, com uma expressão de contrariedade diante de um pacote de papel pardo desembrulhado sobre a mesa da cozinha. Não pude deixar de zombar dizendo-lhe que parecia que o magistério tinha sido aumentado finalmente, pois o tal embrulho continha algumas variedades de queijos finos, salame italiano fatiado, carpacio e outras delicatesses caras e de qualidade que só em algumas bancas de importados do Mercado Público se encontram. Ela contou, num misto de tristeza e constrangimento, que fora até o Mercado para comprar erva-mate a granel, cujo preço costuma ser mais em conta e entrou na banca de importados só para conferir o preço do bacalhau. Como vinha com as mãos carregadas com outras compras, deixou seus embrulhos num cantinho da loja que pululava de gente e foi ao caixa pagar a sua pequena compra; na saída pegou seus embrulhos no lugar em que os deixara e tomou o ônibus para casa. No onibus começou a apalpar e perceber a densidade diferente do que imaginava ter em seus embrulhos e resolveu conferir o conteúdo. Quando viu que não era o seu pacote, desceu do ônibus e voltou a banca no mercado para saber se ninguem reclamara de alguma troca em suas compras, ao que o atendente respondeu que não, que não houvera nenhuma reclamação. Dona Cê disse que enquanto voltava novamente para casa, olhava o embrulho em seu colo e pensava, com o coração cheio de culpa:" De quem será que eu surrupiei este pacote?"
Eu ri muito do seu jeito lastimoso de falar, era uma sentimento sincero e que só se amenizou quando me viu avançar com muito prazer e disposição sobre as delícias que o acaso lhe pusera nas mãos.
Ela era muito engraçada e gostava muito de reforçar seus argumentos com ditos e frases feitas. Eramos, ambas, fanáticas por Coca-Cola. Quando as coisas se complicaram no meu casamento e me fechava em silencios evidentes de que algo não ia bem entre seu filho e eu, sua primeira providencia era vir com um copazio de Coca bem geladinha e ficar ali, ao meu lado se disponibilizando a me ouvir. Eu falava se quizesse.
Independente de tudo, ela sempre me oferecia sua presença, suas palavras, ou seu silencio acolhedor. Nessa época foi uma grande amiga, não só porque me apoiou quando seu filho e eu nos separamos, mas porque eu sentia que ela procurava me entender; não ficou "do lado" de ninguem. Ela não tomou partido nenhum, nos considerava ambos com razão e sabia que finalizar aquele casamento de 15 anos e dois filhos seria a melhor solução.
Dona Cê entendia como ninguem de amor. Sabia que muito poucos foram os ungidos que, a exemplo dela e do meu sogro, seguiram casados, se amando e respeitando realmente e não apenas se suportando por absoluta necessidade fisica, emocional ou financeira ao longo de toda uma vida em comum, como tantos outros casamentos longevos.
Quando meu sogro se aposentou, ele e Dona Cê foram fazer um tour pelo nordeste, foi uma viagem abençoada, acho que a primeira, talvez em muitos anos, que desfrutaram a sós, sem a companhia buliçosa da sua prole.
Na volta, enquanto víamos as fotos da viagem, notei que em uma delas, eles apareciam acompanhados de um outro casal. Dona Cê, comentou que era imensamente grata aquela senhora que aparecia ao seu lado na foto. Surpresa, eu quis saber por que, e ela disse que, se não fosse por aquela senhora, certamente seria ela, Dona Cê, a mulher mais feia do mundo!!
Mais uma vez ela conseguira me fazer explodir em gargalhadas.
Ela tinha um amor infinito, uma adoração, uma idolatria por aquele seu "Velhinho", o meu sogro. Ela sempre me dizia que se morresse antes que o Velhinho, queria que ele se casasse logo com outra senhora, que fosse boa pra ele, pois "que coisa mais horrivel é ver um homem velho saindo para achar mulheres pela rua". Nunca conversamos diretamente sobre sexo, mas ela me parecia ser muito bem resolvida nesta questão. Considerava o sexo uma gratificação do amor, apenas uma coisa decorrente da outra.
Eu já estava casada há um bom tempo e ainda não me sentia segura para ter filhos. Ela era louca por crianças mas nunca me pressionou por netos e eu sabia que se os tivesse, ela ficaria muito mais jubilosa que qualquer outro envolvido na historia . Certa ocasião fui passar uns dias em sua casa, no interior do Estado, ao cabo dos quais seu filho iria me buscar. A noite fui tomar banho para deitar pois seu filho avisara que só chegaria de madrugada. Quando voltei do banho, ela havia trocado os lençois da cama, estendido sobre ela uma camisola bonita ganhara há tempos e nunca usara e sobre o bide, um frasco do seu perfume preferido. Quando nos encontramos na varanda para jantar, ela só sorriu cheia de cumplicidade. Coincidencia ou não, no fim daquele ano descobri que estava grávida.
Como já disse, nunca tive muito talento para a vida doméstica, sou um desastre na cozinha e não consigo gerir nem com sucesso relativo a agenda de uma dona de casa comum. Houve uma época que meus compromissos profissionais e as atribuições domesticas estavam me levando em uma espiral de loucura e cheguei a pensar em deixar de trabalhar para ver se retomava o controle da vida pessoal que estava me escapado por entre os dedos. Sem falar nada, apenas percebendo o meu estado emocional, começou a "convidar" ascrianças para fazerem as refeições com ela, todos os dias da semana. Certa noite, cheguei em casa mais tarde pois aquele havia sido um dia de furia na clínica e nem ao menos tivera tempo de almoçar. Antes de sair do carro olhei para a porta de casa como um condenado encararia o cadafalso.
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Fiquei imaginando a cena dantesca da anarquia que me aguardava lá dentro pois quando saímos de manhã para a escola das crianças e trabalho, a casa ficara como um campo de batalha. Ali me esperavam roupas e louça para lavar, camas para estender e - horror dos horrores - janta a providenciar. Com mais vontade de voltar para a clinica e fazer até 72 horas de plantão do que encarar quele inferno, descí do carro e me encaminhei ao holocausto.
Quando entrei, a cozinha estava limpa, o living em ordem, a roupa recolhida e as camas estendidas. Milagres não acontecem, principalmente para ateus empedernidos como é o meu caso, assim liguei para o santo de plantão mais próximo.

Ao telefone, Dona Cê me avisara que seu filho iria se atrasar e pediu-lhe que buscasse as crianças na escola. Quando chegou em minha casa e se deparou com o caos, disse que ficou "com tanta peninha" de mim que deu uma ajeitadinha nas coisas, banho nas crianças e as levou para jantar na casa dela. Ainda recomendou que eu aproveitasse e fosse dormir logo pois seu filho apanharia as crianças quando voltasse do trabalho, mais tarde. Pode alguem dar maior prova de amor e compreensão? Que outra sogra faria isso? As sogras do anedotário teriam infernizado o filho com reclemações da nora desleixada e incompetente, mas não a minha. Eu não tive mother in law, eu tive mother in love.
Nem só de fatos engraçados e felizes se compõem minhas memórias com Dona Cê.
Apesar de sua imensa bondade, Dona Cê não foi poupada daquela que considero ser a mais severa prova pela qual uma mulher pode passar, a morte de um filho.

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Quando meu cunhado morreu em acidente automobilistico aos 33 anos, levou com ele um pedacinho de Dona Cê. Os velhos estavam no interior e tiveram que viajar 5 horas de carro para assistir ao funeral do filho. Quando chegaram, entraram na capela mortuaria um amparado pelo outro e foram em direção ao esquife de meu cunhado. Dona Cê parou um pouco, largou do braço do Velhinho, juntou as mãos muito apertadas ao rosto e falou num gemido: "Meu filho!!!" Apressou o passo, se aproximou, em lágrimas acariciou suavemente o rosto e apertou entre as suas, com carinho, as mãos postas de meu cunhado. Não falou mais nada, apenas percorria com um olhar desolado o corpo do filho morto. Sua dor era tão grande que parecia ser física; cada expiração do ar que saía de seus pulmões vinha saturada de dor. Naquela tarde, quando soube que Dona Cê havia chegado ao cemitério, me apavorei. Eu não queria ver aquela cena de dor explicita, eu não a queria ver sofrer, imaginei que não suportaria vê-la tão fragil e saí em direção oposta a que ela se encontrava. Imaginei que eu nada poderia fazer por ela e me pouparia daquela dor. Fugí covardemente de minha amiga. O que eu poderia fazer por ela? Fazer como todos os outros que procuravam conforta-la com palavras inúteis? Dizer-lhe que sentia muito? Ela já sabia! Minhas palavras não iam ajudar em nada.

Algumas semanas depois, quando ela já havia voltado para sua casa no interior, fui passar alguns dias lá. Imaginei-a no campo, só ela e o Velhinho, apenas com seus pensamentos, com seu sofrimento mudo, pois se a conhecesse bem, estaria com seu silencio procurando poupar o marido de sua dor. Logo que cheguei, fomos fazer uma caminhada pelo campo, a região é linda no inverno. Os dias são muito frios mas esplendorosamente ensolarados. Falamos de muitos assuntos e inevitavelmente nos lembramos de meu cunhado. Ela ficou com os olhos molhados e se desculpou por estar chorando. Eu disse-lhe que não se desculpasse, que chorasse, chorasse muito, chorasse tudo que tinha vontade, que esgotasse e extavazasse a dor que a sufocava.


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Pedí que falasse para mim, as coisas que gostaria de falar com o Velhinho e não o fazia para poupa-lo. Disse-lhe que tinha ido até lá justamente para ouvi-la. Ela chorou muito.


Muitos, muitos anos depois e eu já estava divorciada de seu filho há um bom tempo quando nos encontramos em um evento familiar. Ela me abraçou e me apresentou a alguem, que não me recordo agora, como a sua nora do coração, além de me apresentar como uma de suas melhores amigas, aquela que lhe deu forças quando da perda do filho amado. Eu nunca imaginei que aqueles silencios que lhe emprestei, que escutar seu choro condoído tivesse lhe feito tanto bem e até hoje agradeço a intuição que tive de ir ao seu encontro naqueles dias longínquos. Pude enfim, retribuir todo o consolo, força e amizade que ela sempre me dera e que num momento de fraqueza lhe neguei. Puxa, até isso, Dona Cê consegue fazer. Transformar uma simples demonstração de solidariedade a uma amiga sofrida, uma tentativa de contornar um erro tosco em um ato de magnificência e generosidade..Naquele momento me sentí, como a muitos anos não me sentia: uma pessoa melhor. E isso, como diria aquela propaganda bem bolada, é priceless.

Minha "irmã" americana e minha paixão pelos EUA!

    Em 1971 eu implorei a meu pai que me deixasse participar do programa de intercâmbio cultural AFS, American Field Service, onde eu passa...