Tenho meu velho gato no colo neste momento . Ele ronrona satisfeito e massageia minhas pernas com movimentos alternados das patinhas dianteiras como se estivesse "amassando um pão". (Foto de KPraetzel
Juliano sobre o muro em cujo outro lado está o Lucky - já não tão ágil mas sempre perigoso...)Eventualmente me olha com os olhos semicerrados e abre a boca num miado inaudivel, um prrrrrrrrr..... cheio de prazer. Juliano já vai fazer 15 anos e é um sobrevivente.
Nasceu no Hospital Veterinário da Ulbra, onde eu trabalhava na época e seus irmãos foram imediatamente adotados. Juliano ficou. As residentes do hospital me convenceram a leva-lo para casa pois não podiam ficar com ele por lá. Dra. Mitika, uma veterinária especializada em felinos e estudiosa do comportamento destes animais diz que quanto mais cedo os felinos forem contatados, manipulados e afeiçoados por nós humanos, mais dóceis e sociáveis eles serão. Juliano não leu nada da vasta e interessante obra da Dra. Mitika, pois tendo nascido no quarto das residentes, e cuidado por elas até os tres meses, sempre foi um gato muito, digamos, mal-humorado. Juliano é o tipo do gato que "queima o filme" de todos seus semelhantes.
Considero os gatos, em geral, muito incompreendidos. É comum ouvir pessoas dizerem "eu odeio gatos" e sairem impunes de uma conversa, já se disserem "eu odeio cães" são olhados como se sofressem de uma sociopatia gravíssima.
Gatos são criaturas maravilhosas, instigantes, sóbrias e cativantes.
Foto de KPraetzel
O Jú, infelizmente, é um gato que só enche de razão estas pessoas que os detestam. Se ele não simpatiza com alguém, seja lá por qual insondável razão, ele não a ignora solenemente como fazem os demais gatos. Não, ele deixa isso muito claro através de rosnados ameaçadores e até tapas - mas sem as unhas - nas pernas do seu desafeto.
Quando Ju tinha seis anos, acrescentamos ao nosso patrimonio felino, a figura adorável do meu saudoso Xiquexique.
Numa manhã chuvosa, meu filho tinha chegado de uma festança com os amigos e eu entrei e seu quarto para recolher suas roupas que ficaram espalhadas pelo chão. Quando juntei a jaqueta para lavar, ao esvaziar os bolsos, encontrei nada mais que um minúsculo gatinho em um deles.
Quando perguntei ao Pedro onde encontrara aquela coisinha fragil, ele disse que o achara jogado na rua, e ficou com pena pois parecia faminto e então..... é claro que o Xique foi bem-vindo, mas a reação do Juliano foi terrivel! Ele não batia no pequeno, mas bufava, rosnava e se afastava ameaçador, toda vez que Xiquexique o procurava, travesso, para brincar. Ficou arredio e melindrado com todos e começou a fazer coisas que evidenciavam sua indignação tal como urinar no monte de roupas limpas e passadas, no aparelho de som do Pedro e evacuar bem no meio do living, de preferencia na frente de uma porta que quando aberta inevitavelmente espalharia suas fezes num rastro nauseabundo. Uma vez o Ju se superou. Começou a , sistemáticamente, evacuar encima da maquina de lavar. Tentei bancar a esperta e coloquei um cestinho de prendedores de roupas sobre a máquina e ele, é claro, evacuou dentro. Não me dei por vencida, afinal, eu era a inteligente da dupla: Deixei a tampa da maquina de lavar aberta e, não deu outra: Juliano evacuou dentro da maquina cheia de roupas lavadas prontas para serem enxaguadas ........ Quando encontrei a "obra" fiquei possuída e saí feito uma louca procurando por todos os locais onde aquele gato celerado costumava se encafuar quando aprontava das suas mas ele ficou uns bons tres dias sem aparecer em casa.
Foto de KPraetzel
Quando digo que é um sobrevivente, me refiro ao fato do Jú ter escapado do Lucky, o catkiller local. Meu vizinho tem um cão da raça Siberian Husky que é um exterminador de gatos. Perdi a conta de quantos ele liquidou. Os gatos não precisavam entrar no patio do vizinho para se arriscar, se eles desfilassem sobre o alto muro que dividia nossos jardins, o Lucky, num pulo certeiro, os abocanhava e não havia o que, meu vizinho ou eu, pudessemos fazer para evitar a tragédia.
Uma vez, há uns 10 anos, Juliano passeava acintoso pelo alto do muro e olhava cheio de desdém para o Lucky que, silencioso, só espreitava. Quando vi a cena, corri em direção ao muro para pegar o Jú e o Lucky, do outro lado, deve ter tido a mesma ideia. Ao me deparar com o Lucky, gritei seu nome, o que deve te-lo desconcentrado permitindo ao Jú, escapar da bocada certeira. Juliano pulou do muro para uma árvore ao lado indo direto para o ultimo galho do topo. Embaixo, ficou o Lucky, silencioso e cheio de frustração. Deixei lá o Juliano até quase o anoitecer, quando os seus miados lamuriosos começaram a ficar inconvenientes. Liguei para meu vizinho e pedi que prendedesse o cão por uns instantes para eu resgatar meu gato. Tive que escalar um enorme jacarandá e trazer em meu colo aquele gato excomungado que em vez de ficar quieto e não piorar as coisas, vinha bufando e rosnando o tempo todo, como uma comadre velha, ranheta e mal-agradecida. Se este incidente tivesse se passado nos dias de hoje, não sei qual seria o seu desfecho. O Lucky, certamente perderia a bocada de novo pois dez anos depreciaram bastante sua performance e aqueles pulos fantásticos ficaram no passado mas o Jú teria que descer por si só do jacarandá ou esperar a vinda dos bombeiros já que o tempo também depreciou bastante minha performance na escalada de arvores.
Doutra vez, Juliano esteve muito doente. Emagrecera muito, perdera tanta massa muscular que mal se podia aplicar a medicação injetável e os remédios de uso oral eram sempre eliminados por golfadas intensas de vômito incoercível. O gato resistia, literalmente, com unhas e dentes - principalmente dentes - à fluidoterapia mesmo estando desidratado, fraco e ictérico. Já não sabia mais o que fazer, ele já não se sustentava em pé e estava tão magro que se podia palpar todos os seus ossos muito evidentes de seu esqueleto, sob a pele amarela e descamada pela desidratação. 
Foto de KPraetzel

Ficava todo tempo imovel, quase sem respirar e mais de uma vez o toquei apavorada para ver se ainda estava vivo ao que ele rosnava para mim. Sim, o meu Jú resistia. Esta situação se prolongava por mais de uma semana e eu via, com apreensão, se aproximar o dia em que eu deveria viajar com meu marido, acompanhando-o em mais uma viajem ao exterior. O estado do Jú se estabilizara num quadro de gravidade e então chamei minha filha e a instrui para o caso de o Jú não melhorar, recorrer ao Tio João Sergio - meu querido colega no Hospital da Ulbra - e pedir-lhe que abreviasse o padecimento do nosso amigo. No dia de embarcar, antes de sair para o aeroporto, fui até o Juliano para acaricia-lo cheia de dor, pensando que essa, talvez fosse, a ultima vez que o faria. Neste momento, Juliano se levantou, lenta e penosamente, deu alguns passos em direção ao meu sofá e começou a afiar, com dificuldade, suas unhas no estofado novo!!! Eu fiquei tão feliz!!!
Era um sinal de recuperação!! Um gato doente não faz isso. A primeira evidencia de que algo não vai bem com um felino, é quando ele relega os cuidados que tem com o próprio corpo, quando deixa de se lamber e limpar os pelos, unhas e patas.
Foto de KPraetzel
Quando voltei, vinte dias depois, ele estava bem melhor. Já comia, continuava evacuando nos lugares mais insólitos possiveis e o humor, este sim mudara mas para pior, muito pior e ninguem tinha coragem de bater o brim do "coitadinho" que ha tão poucos dias estava moribundo, com os pés na cova.... Júliano já tinha percebido isso.
Assim é que o Juliano continuou a fazer seus desaforos num crescente de perversidade de causar inveja em qualquer terrorista. Juliano urinou no edredom novo da Betina, tomou como hábito evacuar no cano da chaminé da lareira e quando batia o vento sul inundava a casa com sua química intestinal repulsiva. Comia ração até fartar-se e então regurgitava encima do comedouro coletivo ainda cheio fazendo com que os demais gatos não tivessem outra opção que não comer a ração da Darryl, minha cadelinha dachshund. Eram pequenas vilezas que o tornavam um gato muito dificil de se amar. Minha mãe certa vez perguntou por que, infernos, eu não me desfazia este gato, dando-o para alguém. Seria uma boa idéia não fosse o fato de que não conseguia lembrar de ninguem que eu detestasse tanto a ponto de presentear com o Juliano e também porque pouco resolveria uma vez que ele me seria devolvido em menos de 24 horas. 
Foto de KPraetzel
O menor dos desaforos do Jú era deitar sobre o televisor e deixar a cauda peluda caída na frente do vídeo, atrapalhando a visão de todos.. Quando se gritava para ele sair, apenas a tremulava rapidamente, como um sinal de que ouvira aFoto de KPraetzel
solicitação mas não a relevara, isso, sem nem ao menos abrir os olhos. Se alguem ousasse empurra-lo dalí, era bom ser rápido, lá vinha unha!

Meu Jú já não tem mais os dentes incisivos e desta forma, não consegue conter a lingua dentro da boca. Fica muito engraçado quando vem caminhando e olhando a todos com um ar ameaçador com aquela ridicula pontinha de lingua para fora
Foto de KPraetzel
Apesar de toda idade, Juliano ainda nos surpreende com demonstrações de extrema agilidade. Em algumas ocasiões, ele vem caminhando felinamente quando de repente, dá um pulo alto em direção a parede, bate com os pés nela e volta ao chão como se tivesse feito um looping. Por isso, apesar de há muito tempo não termos mais crianças em casa, as paredes do living e dormitórios são, até mais ou menos 1 metro de altura do chão, encardidas e marcadas por impressões podais uma vez que o bom mesmo é fazer isso em dias de chuva, após uma saidinha rápida ao relento.
Quinze anos são, literalmente, uma vida inteira de um gato. É comum vê-los com 20 anos mas em estado lastimável. Não sei por quantos anos ainda terei meu Jú fazendo seus desaforos ou dando seus loopings pela casa mas já estou me preparando para os capitulos finais da história, sempre tão surpreendente, deste meu saquinho preto de mau-humor felino ultra-concentrado.