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quinta-feira, 22 de maio de 2008

Minha casa

foto de Kpraetzel

Esta casa é recorrente em meus sonhos. Sonho com seu interior, com seu jardim muitas e seguidas vezes sem que jamais tenha passado da frente do seu potão
O terreno, o portão, tudo é muito familiar, como se já tivesse aí vivido muito tempo.
foto de Kpraetzel
A composição toda é muito onírica. Se tivesse uma veia esotérica já sugeriria que em vidas anteriores...
foto de Kpraetzel
Antes de entrar olhei de longe. Seria como rever um amor da juventude após muitos anos. Confirmar em seu rosto as marcas do tempo e como neste caso, notar apenas sua essencia, que continua bela e imutavel.
foto de Kpraetzel
Ei-la. Isto me parece um rito de passagem. O portão tão fragil e simples é apenas uma etapa a vencer
foto de Kpraetzel
Passei o umbral dos sonhos!!! Entrei! Entrei na casa!Entrei na casa em vigilia! Acordada, sem ser em sonhos! Poderia até ter-me decepcionado, mas não aconteceu. Olhei para trás e lá estava o Nenê, do lado de fora do portão me cuidando. Era o meu liame com a realidade
foto de Kpraetzel
As árvores devem ter a idade da casa. Quando entrei e comecei a caminhar pelo jardim, eu as olhava e percebia o quanto elas estavam mal-tratadas e podia ouvir as fadas sussurrando: Olha só como ficamos!!!
foto de Kpraetzel
O pé de camélias, envolto pela névoa desta manhã fria, tem um ar feérico e onírico, muito familiar.
foto de Kpraetzel
Esta é a parte de minha casa que mais se parece com o que vi nos sonhos - talvez porque pudesse enxergar e não ficasse tudo a cargo de minha imaginação.
foto de Kpraetzel
As duas anelas da frente da casa que correspondem a uma pequena sala de jantar e uma de estar.
foto de Kpraetzel

Exatamente em frente a estas janelas tinha um caramanchão que encobria uma feia caixa de água que já foi tirada dalí faz tempo. Pena que o caramanchão também saiu. Pode-se perceber que os vandalos pichadores já andaram por ali.
foto de Kpraetzel
As janelas do quarto dianteiro com suas floreiras vazias e que deveriam ter hospedado gerânios vermelhos e brancos
foto de Kpraetzel
As janelas do quarto anterior da casa hospedavam aqueles gerânios lindos e viçosos.
foto de Kpraetzel
Mais abaixo, aparecem as paredes do que seria um escritório ou um exíguo livingroom. As pesadas camadas de tinta sobrepostas no papel de paredes original, parecem uma maquiagem desfeita por lagrimas, num rosto bonito.
foto de Kpraetzel
As janelas do quarto da frente. Como deveria ser aconchegante o som da chuva tamborilando nas pequenas vidraças, ou a luz da lua a atravessando em noites de verão.
foto de Kpraetzel
A janela da pequena sala de janta e a entrada principal que dá para a sala da escada. Milhares e milhares de vezes me imaginei abrindo estas janelinhas e dizendo bom dia ao dia.
foto de Kpraetzel
A escada de acesso a pequena varanda que já teve um toldo, possivelmente listado de branco e verde.
foto de Kpraetzel
A exígua salinha-hall de entrada que serve apenas para distribuir o transito dentro de casa, entre os quartos, banheiro e cozinha
foto de Kpraetzel
O rastilho mostra o lugar onde deveria estar a escada - que ocupa quase 60% do espaço da entrada da casa. Nota-se que esta sala já teve papel de parede que foi grosseiramente pintado por cima, talvez em uma das dezenas de "reformas" que sofreu ao longo dos seus presumíveis 60 - 70 anos. O papel era de flores vermelhas, barncas e amarelas sobre um fundo creme, riscado verticalmente. O pael ia até apenas a metade da parede
foto de Kpraetzel
A escada. Jaz atirada no meio do jardim, onde deveriam estar plantadas várias e exuberantes "jacobbsblumes", estrelinhas e avencas. A madeira é natural e integra e foi milagrosamente preservada da fúria dos sucessivos inquilinos.
foto de Kpraetzel
A janela simplinha do quarto dos fundos. Não pude subir até lá pois a escada (linda, de madeira) foi arrancada. Deveria ter uma vista deslumbrante do Guaiba. Desejava que fosse o meu quarto.
foto de Kpraetzel

O banheiro possui uma velha e encardida banheira de imersão, restritamente cercada por poucos azulejos brancos emoldurados por alguns de cor azul-marinho, foi violentado com a colocação de um armario embutido modernoso
foto de Kpraetzel
Os canos de cobre para a agua quente do chuveiro desapareceram logo,logo.....
foto de Kpraetzel

A treliça separa o que seria a "area de serviço" do resto do pátio, onde está a garagem.
foto de Kpraetzel
Esta escada, era a ligação da pequena área da varanda com a cozinha, que fica totalmente independente da casa. Ela era de madeira, como se tivesse sido construida depois.
foto de Kpraetzel
Onde estava a parte da cozinha, vê-se os azulejos brancos rebordados por amarelos.
foto de Kpraetzel

A garagem. Sabia, desde quando espiava a casa apenas de longe, que esta peça me reservaria surpresas. Muito mais bem conservada que o resto da casa, tem detalhes ainda de sua construção original, como aquela janela naval e o forro do quarto da criada. apesar de ficar no mesmo predio, o quarto é totalmente individualizado da garagem.
foto de Kpraetzel
Detalhe da janela do quarto da criada, que fica no fundo da garagem. O primor do acabamento das esquadrias, as aberturas todas inteiras. O forro e o piso, tudo perfeito. Longe daquele descalabro de camadas e camadas de tinta sobrepostas nas paredes da casa! Concertos "meia sola" em portas e janelas. Vandalismo consentido.
foto de Kpraetzel
Detalhe da janela naval no fundo da garagem, antes do banheiro da criada.
foto de Kpraetzel
Detalhe da parte detras da garagem com a porta que independentiza o quarto da garagem
foto de Kpraetzel
No fundo do terreno, uma escadinha leva a um portão de acesso ao quintal ou a que deveria ser um pequeno pomar. O terreno é bastante acidentado e é separado por uma pequena sacada.
foto de Kpraetzel
A pequena sacada que separa um grande desvão do terreno, atulhada com os restos do madeirame do telhado e dos quartos.
Assim é que..........................
foto de Kpraetzel

Estão derrubando um pedaço dos meus sonhos.
Ver meu chalé sem telhado, com as aberturas despidas, me parece estar vendo um velho amigo, nú e desamparado. Certamente, ali será construído um prosaico prédio de apartamentos, sem sabê-lo, fundado sobre de um lugar feérico, objeto de sonhos recorrentes. Sem o telhado, posso ver quase todo o seu interior que fora completamente produzido por minha imaginação; vislumbrar os segredos que ali se escondiam e me espreitavam em cada cantinho mágico de suas dependências.
A maldita mania de ser totalmente correta me impedia de entrar no terreno e explorar pela primeira e derradeira vez, a casa onde moraram minhas fantasias por tanto e tanto tempo.
Com o incentivo de minha amiga Lolly, juntei o que sobrou de ilusão em mim e fui visitar meu chalé, ao menos para poder continuar sonhando com ele.
Entrei por um buraco na cerca. Quando pisei lá dentro, eu pensei: Consegui! Estou finalmente aqui dentro. Entrei em minha casa! Olhei, pela primeira vez a rua pelo lado de dentro de seus portões. Caminhei por tudo com cuidado e curiosidade, olhei todos os cantos com a avidez de quem pode, finalmente, ver algo que sempre lhe fora apenas sugerido e por fim estava sendo revelado. Nada me surpreendeu. Meus olhares furtivos por tanto tempo, me deram uma idéia de como poderia, mais ou menos, ser a casa e seu interior.
Era tudo como eu imaginava que fosse. A casa deve ter sido adorável quando nova. Tudo nela é bem feito. Está muito danificada por reformas sem capricho, certamente a soldo de inquilinos desapegados. A sala de café da manhã, é exatamente como imaginei, talvez um pouco menor.
Toda ela é pequenina e acolhedora como sempre quis uma casa. A minha incrível casinha sem living. Quando se entra pela porta da frente, a primeira peça da casa abriga exclusivamnte tres portas e uma escada. Essa escada leva aos unicos dois quartos no andar superior e é igual ao que eu imaginei que pudesse ser. Uma pena eu não tenha podido subir aos quartos... a escada e o piso superior foram retirados e jogados no meio do jardim.
Se eu tivesse dinheiro, compraria esta casa. Ela mesma, deve valer um nada, o terreno sim, apesar de acidentado, é muito valorizado por sua localização privilegiada. Definitivamente, ela não é para o meu bico.
Faz muitos anos que eu a vi e a quis.
O encanto começou nos idos de sessenta. Nós moravamos duas ruas acima do local onde fica o terreno do chalé. Quando meu pai ia nos levar para a escola, todos os dias de manhã, passava na frente da casa. Estacionado ali, havia um carro onde um homem , dos seus trinta e muitos anos, esperava pacientemente. Todo santo dia. Como sempre aconteceu com tudo em relação a esta casa, o que eu sabia dela e de seus moradores era por puro exercicio de dedução, fruto de muita observação e curiosidade. Como as cenas de um filme, que são editadas, montadas e exibidas, soube um pouco da vida de seus moradores, em retalhos esparsos e casuais e fui montando o quebra-cabeças . O homem esperava todos os dias por uma moça, nem tão moça, de seus trinta e poucos anos, que morava no meu chalé. Deveriam ser colegas de trabalho. O que realmente me encantava era que ele, assim que a moça aparecia no portão, levanta-se de seu assento na direção, fazia a volta no carro e abria a porta para que ela entrasse. Um gesto, já para aquela época, muito demodéé mas que embalava a fantasia de uma pré-adolescente. Não posso dizer que a moça fosse bonita. Tinha um tipo germânico. Cabelos de medio comprimento, louros, eventualmente presos em um coque discreto. Não sei por que, sempre me lembro dela vestida com saia e blusa em tons pasteis de rosa, azul clarinho ou beje e um casaquinho nos ombros. Um estilo romântico. Do homem, eu não me lembro como, mas acho que por minhas caminhadas pelos arredores, descobri morar numa casa proxima dalí, mais ou menos da mesma época e estilo de construção do meu chale, mas uma casa sombria, triste, quase soturna. No muro de entrada desta casa, numa pequena placa de metal, ao lado do portão estava escrito: “Eng. Conrad”. Muito tempo depois, namorei um rapaz que morava na casa ao lado à do tal “Eng. Conrad”. Do muro do Zé Carlos, podia-se enxergar o terreno do “Eng. Conrad” quase que de forma panorâmica. Era um pátio tomado por folhas secas, madeiras velhas, sem flores, mal cuidado. A casa toda tinha cor de terra, de poeira. As portas e janelas eram de um tom entre o bordeaux e marrom, e permaneciam eternamente fechadas. Um dia eu estava debruçada sobre o muro da casa do Zé Carlos, fuçando e tentando arrancar informações sobre o seu vizinho e ele me disse que o homem morava, agora, sozinho ali. Antes, vivia com seus velhos pais. O Zé Carlos me disse que achava que ele era gay, que era um cara muito “esquisitão”. Um homem complicado, talvez muito infeliz, que se manteve solteiro e vivia com seus pais. Isso já bastava para ser chamado de gay. Outra vez, já com meus filhos crescidinhos, encontrei o homem no supermercado. Ele estava mais gordo e tinha uma aparência descuidada. Tive que disfarçar para ele não notar que o observava. Parecia cansado, com um jeito meio embotado, distante. Ainda usava mesmo cabelo aparadinho em estilo cadete mas com os tons loiros um pouco mais encanecidos.
Na época em que o via na frente de meu chalé, eu torcia para que ele e a moça namorassem. Acho até que se ensaiou alguma coisa mas, pelo que Zé Carlos me disse, continuou solteiro. Acho que ela tinha muito mais expectativas num romance que ele e talvez tenha se cansado de esperar.
Nunca mais soube da moça. Eles simplesmente desapareceram do chalé. Lembro que uma vez, torturei meu pai para comprar aquela casa. A moça desaparecera de lá e ví que outras pessoas o ocupavam. Minha casinha estava se perdendo em descuidos. Os gerânios brancos já não estavam nas floreiras e o portão todo mal consertado – típico de inquilinos negligentes. Achei que seria a hora de tomar posse do meu cantinho. Meu pai, acho que para se libertar de meu assédio, consentiu que eu fosse ver o que os donos queriam pelo imóvel. Como falar com o proprietário? Como encontrar a moça? Através do “Eng. Conrad”, é claro! Fui até aquela casa ao lado da casa do Zé Carlos. Bati na campainha. Nada. Batí palmas. Nada. Quando já ia indo embora, ví o homem descendo as escadas da casa. Ele estava de camiseta branca, bermudas caqui e chinelos. Eu me desculpei e perguntei se ele conhecia as pessoas que seriam proprietarias da casa da rua Silveiro. Ele pareceu surpreso e confirmou. Então, perguntei se ele não sabia se os donos estariam interessados em vender o imóvel. Ele apenas me disse, secamente mas com cortesia, que sabia que os proprietarios não o queriam vender. Fiquei muito triste. Naquela tarde, escrevi uma carta aos proprietarios onde confessava o meu encantamento por aquela casa, prometia-lhes que, se a adquirisse, não a demoliria; que a manteria da forma mais original possivel e que mantinha a esperança de que, se um dia eles resolvessem vende-la, pudessem avisar-me e dar uma chance de compra-la. Não sei o que fiz com a carta, mas tenho uma vaga lembrança de te-la envelopado e posto na caixa de correio do “Eng. Conrad”. O que o homem fez com ela, não sei. Provavelmente a ignorou e pôs fora.
A moça morava em meu chalé com a mãe, muito velhinha. As vezes via aquela senhora proxima ao portão, de chambre floreado e chinelinhos de lã. Tinha uma aparência fragil, miúda, com cabelos curtos e branquinhos.
Hoje, toda essa gente se dispersou. Creio que muito poucos existam, ainda. O homem, é provavel que ainda viva triste e só em sua casa assombrada, obsidiado por fantasmas de uma identidade sexual indefinida e torturante. A moça, quem sabe? Certamente não casou, mas a vida tem sido menos amarga para mulheres que ficaram "titia". Deve ter tido alguns romances mal resolvidos, suficientes para tira-lhe as ilusões de que poderia ter perdido muita coisa em não se casar.
Ficamos apenas eu e a minha casa. Não tenho esperança de que possamos ficar juntas.
Estou ansiosa para ver como vou administrar meus sonhos agora que a conheço.
É todo um processo mental muito interessante. Sempre sonhava com ela, com seu interior, com pessoas e com enredos diferentes. Assim foi por anos. Entravam e saiam inquilinos e os sonhos eram sempre semelhantes. Eram mesmo recorrentes. Quando notei que ela ficou um longo tempo sem moradores e comecei a desconfiar que poderia ser posta a venda e desmanchada para dar lugar a algum empreendimento imobiliário, os sonhos passaram a ser com ela sendo demolida. Neles, eu entrava em seu interior e procurava olhar tudo e descobrir detalhes de sua arquitetura. Não demorou muito para os meus temores se materializarem e uma enorme placa escrita “VENDE-SE” ficou exposta em seu portão. Passaram-se meses, até que um dia tiraram a placa e então, eu só fiquei esperando pelo pior.
O dia que a vi sem telhado e sem aberturas, decidí que não a deixaria terminar sem declarar-lhe o meu amor.
O sujeito que o novo proprietário contratou para ficar com as chaves do portão e cuidar para que não a vandalizassem, me disse que a casa foi vendida, mas o dono não pretendia fazer nada, de imediato, com ela. Apenas tirou o telhado e as aberturas, para que não fosse invadida por andarilhos.
O dia que fui até lá, falei com o sujeito e disse-lhe que estava entrando para tirar algumas fotos da casinha. Pedi para voltar outras vezes e ele, muito camarada, me olhou com um ar de desconfiança, não de minha idoneidade, mas de minha sanidade mental, pois o que, em sã consciência, alguém poderia querer com uma casa velha e destelhada?
Na verdade, não sei se consguirei voltar. Para mim, ver minha casa destelhada, com as aberturas escancaradas, é tão doloroso quanto ter um amigo doente terminal. Aquele que a gente fica rezando para que morra logo, se possivel dignamente, pois quem está de fato sofrendo com sua ruína física somos nós. Voltar até minha casa será como ir visitar este amigo na UTI e fingir que acredito que ele voltará para casa e que tudo vai terminar bem.
Tenho vontade de voltar para tirar mais algumas fotos nossas.
Seria um modo de eternizar-nos.

Minha "irmã" americana e minha paixão pelos EUA!

    Em 1971 eu implorei a meu pai que me deixasse participar do programa de intercâmbio cultural AFS, American Field Service, onde eu passa...