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sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Olhos de Panda, lágrimas e outras reminiscências

As vezes gostaria de poder chorar com mais facilidade.
O choro alivia. O choro incontido é catártico, é lenitivo. Me ressinto da minha dificuldade em chorar.
Quando meu netinho nasceu prematuro, ficou quase duas semanas no CTI neonatal. Era exatamente a época em que eu estava dando os últimos arranjos em minha tese e os acontecimentos me levavam num turbilhão. Um dia, após ter ido ao hospital levar algumas roupas para minha filha que não arredava pé do lado de Rafael, fui direto para o laboratório da universidade. Lá, minha colega Cristina perguntou pelo menino e eu disse-lhe que ele estava muito debilitado, não tinha força para a sucção da mama e então, estavam-no alimentado parenteralmente. Fiquei em silêncio alguns segundos, revendo mentalmente a imagem de meu neto na encubadora, todo cheio de cânulas e fios, respirando pausadamente e quase sem se mexer, rubicundo e enrugadinho. Ele era tão pequenino... Ao olhar novamente para Cris, ela tinha os olhos vermelhos e marejados. Fiquei toda desconcertada. Ali estava ela com sua emoção explícita, tão espontânea que me deixou sem jeito; quem deveria verter lágrimas era eu e no entanto meus olhos seguiam firmes e secos, não obstante a angustia que me tomava o espírito.
As lágrimas sempre me pregaram peças.

foto Google imagens No último ano de faculdade, quando já ia me formar, por motivos que não cabe explicar agora, fui impedida de colar grau com minha turma. Quando o professor me deu a noticia, não acreditei, penas perguntei por quê. Eu não lembro, na verdade, o que me respondeu pois durante sua explicação percebí que ele já tomara uma decisão e não consideraria qualquer argumento de minha parte, fosse qual fosse. Fiquei ali, esperando que terminasse sua preleção, ansiosa para sair logo do gabinete pois um grito de revolta estava se formando em minha garganta, tinha um choro pronto para erupcionar de meu peito e se derramar pelos olhos a fora. Eu apertava os lábios e olhava fixamente para a parede do fundo da sala, atrás de sua cadeira alta onde havia um crucifixo empoeirado como a complacência daquele homem. Eu não queria chorar. Eu respirava fundo e pensava: não vou chorar, não vou chorar, não vou chorar, ao mesmo tempo que via o crucifixo ir perdendo a nitidez, ficando todo embaciado e então quando pisquei, senti o rastro aquecido da lágrima escorrendo pelo meu rosto. Me odiei mais do que já me odiava no momento, por ter acreditado que tudo se resolveria como fui levada a crer, por ter deixado que aquela situação chegasse ao ponto que chegou mas sobretudo por estar chorando na frente daquele homem. Quando finalmente o professor terminou de falar, tentei sorrir para me despedir mas só piorei a situação pois o que consegui foi um arremedo de sorriso, foi um soerguimento de lábios, foi uma careta ridícula ou o que o diabo o quisesse, menos um sorriso. O narigão vermelho e molhado e as lágrimas pretas do rímel, borravam meus olhos e me davam a aparência de um urso panda resfriado. Entrei no carro e chorei de raiva, de tristeza, de frustração e de vergonha de meus pais, de meus colegas, de todo mundo. Este foi o único choro incoercível e desatado de que tenho memória. No mais, todas as situações angustiantes, aterradoras, frustrantes ou simplesmente tristes que protagonizei após, sofri em seco e por conseguinte, o dobro. Aquela sensação de sufocamento, aquela amargura infinita, a dor contida, tudo isso fica preso, emperrado no peito, quando deveria extravar lubrificados pelas lágrimas. Acho que estes sentimentos se mumificam no espirito da gente e estas múmias podem nos tornar pessoas descrentes, irônicas ou até mesmo cínicas.
Chorar é, queiram ou não os politicamente corretos, um sinal de fragilidade. Não choro, não porque não queira; mas porque não posso. foto Google imagens
Tanto é assim que as lágrimas alheias me desarmam totalmente, como no episódio com a Cris. Se eu souber que alguem chorou em conseqüência de um ato meu ou palavra que eu tenha proferido, fico para morrer de remorso e de tristeza. As lágrimas realmente me impressionam muito, talvez por serem tão raras para mim.

Minha "irmã" americana e minha paixão pelos EUA!

    Em 1971 eu implorei a meu pai que me deixasse participar do programa de intercâmbio cultural AFS, American Field Service, onde eu passa...