Minha mãe tem 83 anos e, felizmente para todos que a rodeiam, está lépida e saltitante na sua rotina de chás, viagens e programas com as "meninas", suas amigas também octagenárias.
Minha avó, morreu com 94 anos, derrotada pelo insidioso mal de Alzheimer, caso contrario, teria ultrapassado, com facilidade os 100 anos pois seu corpo era um penedo. Sobreviveu por mais de 10 anos em estado semi-vegetativo em virtude desta devastadora doença.
Minha bisavó, a nossa Ômama, faleceu entrada nos oitenta. Minha bisa teria vivido mais, não fosse o tipo de vida a que foi condenada a levar. Quando perdeu o marido, ainda jovem, foi sentenciada a uma vidinha pacata e medíocre no interior, na colonia alemã. Sophia Von Wennerberg era seu nome.
Minha bisavó, a nossa Ômama, faleceu entrada nos oitenta. Minha bisa teria vivido mais, não fosse o tipo de vida a que foi condenada a levar. Quando perdeu o marido, ainda jovem, foi sentenciada a uma vidinha pacata e medíocre no interior, na colonia alemã. Sophia Von Wennerberg era seu nome. Oma Sophia, sempre de perfil, na foto que foi enviada ao noivo - 1876
Ela falava alemão e inglês com fluência e lia bem em francês e espanhol. Quando jovem, ia com freqüência a Europa e por lá passava longos periodos de felicidade.
Nasceu no Brasil por acaso, pois sua mãe, a alemãzinha Elizabeth Hausen, casou-se com Christian Von Wennerberg herdeiro de armadores de Altona em Hamburgo no norte da Alemanha e os dois viviam pelo mundo em viagens de negócios e de lazer, sendo que seus outros dois filhos, Dagmar e Helmuth nasceram em Copenhagen na Dianamarca.
Ôma Sophia viveu uma vida feliz e intensa em sua juventude .
Casou-se, penso que por amor, com meu bisavô Johannes Conrad Preussler que ao que me parece e foi contado, era um homem muito gentil, mas fraco no que respeitava a gerir negocios e sentimentos. Foi um casamento que sucumbiu ao genio forte de minha Ômama e ao triste distanciamento de Ôpa "João". Oma Sphia e Opa "João" - noivado
Viviam reféns de uma relação tempestuosa que não resistiu à intolerância mútua e que só os redimiu quando Hans Conrad capitulou e faleceu por grave doença degenerativa.
A Sophia não restou outra opção que não ir morar com uma de suas três filhas, Ruth - minha avó, Alix e Hertha. Vó Ruth era a que se achava em melhores condições financeiras pois casara-se com meu avô Pedro Praetzel, um rapaz de família humilde mas muito esforçado e empreendedor que conseguia dar a sua familia, requintes de conforto e modernidade que roçavam o "american way of life" em pleno grotão brasileiro .
Tante Hertha (sentada), Vó Ruth e Tante Alix, com o cãozinho no colo. Alix sempre amou os cães e os teve sempre, até o fim de sua longa vida Minhas mais remotas lembranças da Ômama, já a encontram isolada em seu quarto, cercada de estantes de livros, semanários e revistas argentinas e principalmente alemãs como Der Spiegel e Stern, que meu avô Pedro assinava para ela. Havia também em seu quarto um radio enorme onde ela ouvia a Deutchewelle, uma radio alemã que a colocava em contato com um
mundo que ela conhecera e sabia não mais estar ao seu alcance.
mundo que ela conhecera e sabia não mais estar ao seu alcance.Opa "João" em seu escritório numa foto enviada a sua única neta, minha mãe, que na época, dezembro de 1930, tinha tres anos incompletos.
Ômama nascera com um defeito em seu olho esquerdo que o tornou parcialmente cego, conferindo-lhe apenas uma visão monocular que acrescentava a sua já grave expressão, um olhar penetrante, aquilino. Sempre que posava para fotografias, se punha levemente de perfil - desde as fotos remetidas ao amado noivo até a pose nos batisados como a provecta bisavó - um resquicio de vaidade a que ainda se permitia.
O casamento com Hans Conrad não fora exatamente um sucesso. Sophia estive
ra noiva de um belo rapaz chamado Oscar Müller que morreu pouco tempo após o noivado, vitimado por uma pneumonia galopante. Quando fiz quinze anos, minha avó Ruth me presenteou com o anel que Oscar tinha dado a Oma Sophia por ocasião do noivado.
ra noiva de um belo rapaz chamado Oscar Müller que morreu pouco tempo após o noivado, vitimado por uma pneumonia galopante. Quando fiz quinze anos, minha avó Ruth me presenteou com o anel que Oscar tinha dado a Oma Sophia por ocasião do noivado. Opa "João" com minha mãe no colo. Ele parecia gostar muito de crianças.
Opa "João" e Oma Sophia não eram ricos, enfrentavam, na verdade, algumas dificuldades financeiras talvez pelo tipo de vida social bastante intensa que levavam. Diz minha mãe que se lembra, quando com seis anos e ia passar alguns dias na casa dos avós em Porto Alegre, que Opa dormia em um quarto e Oma noutro, assim como quando iam ao teatro, Opa ia num carro e Oma noutro com algumas parentas e amigas. Um perfeito casamento de aparências. Meu bisavô Hans Conrad foi um dos fundadores da Sociedade Leopoldina Juvenil em 1906 que finalmente inaugurava sua sede própria, no centro da cidade, cheia de glamour e frequentda por figuras de destaque da política e da sociedade local.
O belo e desafortunado Oscar Müller, primeiro noivo de minha omama, que faleceu precocemente deixando-a emocionalmente viúva para sempre.
Meu avô Pedro Praetzel, era uma figura afável, grande e bonachão, sempre bem humorado e muito bem quisto por vizinhos, colegas e funcionários. Ele tinha um dos poucos automóveis da cidadezinha no interior onde morava com a familia. Era um Ford Tudor 1948 cinzento que eu achava feioso e bicudo diante dos novos e deslumbrantes modelos do tipo "rabo de peixe" que surgiam naqueles idos de 1959. A casa de meu avô era meu mundo de fantasia e prazer. Quando íamos para lá, nas férias, a vida comezinha era suspensa e então, penetravamos num universo de sonho e encantamento.
Não havia o que meu avô não fizesse para nos agradar. Acho que nos ver felizes era seu desiderato, seu extremo de satisfação.
Não havia o que meu avô não fizesse para nos agradar. Acho que nos ver felizes era seu desiderato, seu extremo de satisfação.Apenas um genro amável como ele, se importaria em dar tanto conforto e lazer a uma sogra como Frau Preussler. A Oma quase não participava da rotina da casa, tinha seus aposentos separados como um apartamento que era o seu quarto-mundo e pouco saía de lá.
Vô Pedro, Vó Ruth e Omama, na varanda da casa onde moravam.
Algumas vezes, ela permitia que nós, eu e meus primos, entrassemos em seu quarto quando então nos contava histórias que lia de tiras de cartoons que vinham em revistas alemãs que colecionava e organizava em albuns por ela confeccionados. Eram albuns feitos de papel grosso colado e amarrados com cordão ou linha de bordado, todos encapados e catalogados com capricho e minúcia. Eram tiras de desenhos bonitos e textos interessantes e creio que veio daí, destas tiras de revistas, o meu gosto por comics quando adolescí.
Eu olhava aqueles desenhos e me exasperava por não poder decifrar os seus textos naqueles caracteres tão estranhos do idioma alemão, aquelas letras góticas que me intrigavam, me faziam sentir impotente e minha ignorância infinita.
Eu olhava aqueles desenhos e me exasperava por não poder decifrar os seus textos naqueles caracteres tão estranhos do idioma alemão, aquelas letras góticas que me intrigavam, me faziam sentir impotente e minha ignorância infinita.
Naquela época, não havia luz elétrica em muitas cidades do interior, mas na casa de meu avô, nós tinhamos um refrigerador a querosene e a eletricidade para os demais eletrodomésticos era fornecida pelo gerador a diesel da empresa onde meu avô era diretor. Tinhamos eletricidade até as oito horas da noite após as quais, entravamos no século passado - ou retrasado - dos lampiões de gás.
Minha mãe aos dezessete anos, num pic-nic nas margens do rio e meu Vô Pedro todo aparamentado para a caça à marreca caneleira - 1944.

Minha mãe com algumas amigas e colegas que iam passar as férias com ela


Minha Oma Sophia era uma artista. Pintava com capricho e sensibilidade; bordava com primor e mais que tudo, fazia bonecos de tecido, delicados bichinhos de pano que nos dava por ocasião dos aniversarios, natais e páscoa. Uma emoção enorme me possui quando me lembro de seus dedos finos e nodosos de anciã, manipulando com destreza lãs e fios, transformando restos de tecido que meu avô trazia para ela, em ursinhos, coelhos e cãezinhos coloridos de olhos de botões e orelhas forradas de cetim rosado. Todos eram vestidos com roupas formais, com gravatinhas borboleta, saias floridas com aventais branquinhos bordados com rendas e monogramas. Era uma artesã e tanto. Aos oitenta anos não usava óculos, lia com uma grossa lente de aumento que fazia meu deleite quando ela permitia que eu a manipulasse um pouquinho e observasse tudo com uma curiosidade insaciável, desde o prosaico livro com suas figuras coloridas, as nervuras e pilosidades de folhas do jardim até uma formiga que passasse no batente da janela.
Quatro gerações: Omama, Vó Ruth, minha mãe e minha irmã mais velha
Minha irmã mais velha e eu na frente da arvore de Natal, cercadas de brinquedos, inclusive um piano em miniatura que tocava valsinhas.
Minha irmã e eu sentadas no tapete do living de nossa casa, folhando um album que Omama tinha feito para nós. Eu me lembro deste inverno de 1958.
Vô Pedro e Vó Ruth no jardim da casa onde moravam. Ao fundo vê-se a chaminé e os armazéns da empresa onde meu avô trabalhava.

Quatro gerações: Omama, Vó Ruth, minha mãe e minha irmã mais velha
Eu tinha quatro bonecos feitos pela Ômama. Um urso preto com roupas de tirolês que se chamava Oscar, uma coelha branquinha vestindo um colete preto sobre uma blusa branca e saia muito colorida, um ursinho marrom de terno e gravata e ainda uma coelhinha marron com alguma roupa pouco sedutora pois não me lembro com nitidez de sua indumetária. Além do Oscar, só recordo do nome das coelhas, Biruba e Birubina. Não estou bem certa de quem as batizou mas acho que não fui eu, pois até hoje não gosto destes nomes e apenas os guardo com carinho por associação aos seus donos. Havia também uma boneca que era a favorita. Era uma camponesa com botinhas de cetim vermelho, o indefectivel colete preto sobre a blusa branca e uma saia toda bordada em grega colorida. Seu nome era Maria Schell. Brinquei pouco com estes bonecos.
Logo foram suplantados por bonecas de vinil, que reproduziam a aparência de bebes rosados e fofuchos com grandes olhos azuis que se abriam e fechavam. Foram presentes de meu avô Pedro, lógicamente. 
Vô Pedro "de castigo" sentado em uma cadeirinha de brinquedo ao lado de "Lilila", boneca de vinil favorita de minha prima Emilia.
Meu bebe de vinil favorito se chamava Patrocínio. Coitado.
Ele era gêmeo de um outro bebê que se chamava Alexandre. Patrocínio era um bebe alegre e bem comportado, já Alexandre era implicante e chorão e eu, uma mãe facciosa e passional com meus filhos de vinil. 

Minha irmã mais velha e eu na frente da arvore de Natal, cercadas de brinquedos, inclusive um piano em miniatura que tocava valsinhas.
Ômama sempre gostou de animais e ela tinha uma caturrita que chamava de Rita. Ensinou-a a dizer os nomes de meu avô, do capataz do pátio o "seu" Timóteo, e um sem numero de outros sons. Minha mãe sempre disse que minha afinidade com gatos, eu a havia herdado da Ômama.
Minha bisavó criou para si um mundo onde viveu de lembranças. Ficava em seu quarto, lendo seus livros, criando quadros, bichinhos e albuns de figuras coloridas.
Ela fez para cada um de seus bisnetos albuns com recortes de lindas paisagens, lugares pitorescos, animais mimosos e desenhos engraçados que colhia das paginas daquelas revistas européias. Um destes albuns ainda está comigo. Quando meu neto tiver mais maturidade para apreciar, vou lhe mostrar aquelas figuras bonitas e contar a história de sua tetravó.
Minha irmã e eu sentadas no tapete do living de nossa casa, folhando um album que Omama tinha feito para nós. Eu me lembro deste inverno de 1958.Quando vejo meu neto desenhando com tanta facilidade com apenas seis anos, percebo com orgulho e carinho os genes de minha Ômama, sua herança graciosa e singela, seu talento sereno se manifestando em nossos descendentes.
Creio que vivemos muito porque todas nós sempre estivemos muito envolvidas com projetos pessoais e profissionais. Oma Sophia chegou a lecionar ingles e alemão para ajudar nas finanças tortuosas do Opa "João". Minha avó Ruth, foi oficial do registro civil na pequena cidade onde moravam e seu cartório foi por muitos anos, o único daquela comarca. Minha avó salvou muito menino de se chamar "Varti" (Valter) ou "Istevo" (Estevão). Ela chegava a se indispor com pais que insistiam em batizar seus filhos com nomes estrambóticos como Dieimesdim (James Dean) de Oliveira ou Tailôr de Souza. Primeiro, ela tentava dissuadir os pais da patacoada, quando não os demovia do absurdo, ela fincava o pé e sentenciava: "No meu cartório eu não registro!!" o que obrigava os mais renitentes a viajar 50 km até a comarca mais próxima para perpetrar o crime contra a futura auto-estima daquele "pobre inocentinho".
Creio que vivemos muito porque todas nós sempre estivemos muito envolvidas com projetos pessoais e profissionais. Oma Sophia chegou a lecionar ingles e alemão para ajudar nas finanças tortuosas do Opa "João". Minha avó Ruth, foi oficial do registro civil na pequena cidade onde moravam e seu cartório foi por muitos anos, o único daquela comarca. Minha avó salvou muito menino de se chamar "Varti" (Valter) ou "Istevo" (Estevão). Ela chegava a se indispor com pais que insistiam em batizar seus filhos com nomes estrambóticos como Dieimesdim (James Dean) de Oliveira ou Tailôr de Souza. Primeiro, ela tentava dissuadir os pais da patacoada, quando não os demovia do absurdo, ela fincava o pé e sentenciava: "No meu cartório eu não registro!!" o que obrigava os mais renitentes a viajar 50 km até a comarca mais próxima para perpetrar o crime contra a futura auto-estima daquele "pobre inocentinho".
Vô Pedro e Vó Ruth no jardim da casa onde moravam. Ao fundo vê-se a chaminé e os armazéns da empresa onde meu avô trabalhava.Minha mãe foi professora toda sua vida e sempre esteve envolvida com assuntos profissionais.
Sou a quarta geração de mulheres que tiveram uma profissão, desde Sophia, que talvez tenha sido a única que não trabalhou por prazer e sim por imposição circunstancial.
Se a mim ela tiver legado sua longevidade, espero desfruta-la com o seu mesmo vigor intelectual, sua lucidez e não padecer na obscuridade do mal que aprisionou sua filha, minha avó, nos porões da demência senil por longos anos até o fim de seus dias.
Viver muito pode ser uma benção ou um castigo. Não nos cabe escolher de que forma viveremos se vivermos muito, mas podemos agir de maneira a tornar nosso castigo menos rigoroso ou nossa benção mais feliz e duradoura.
Procuro manter minha mente sempre estimulada e me envolver com a vida ao meu redor, não me deixar amargurar pelos insucessos e não pensar muito no futuro, já tive bastante tempo para isso no passado, mesmo porque as coisas sempre se apresentaram muito diferentes daquilo que eu programei e ainda, nem sempre o que eu programei resultou ser o melhor para mim afinal.
Acho que estou bem preparada para viver muito, genética e exemplos eu já tenho - que venha a vida então!


Um comentário:
Fiquei muito emocionada! Chorei! Foi bom! Obrigada!
Sissa
Postar um comentário