Passei a vida inteira olhando pra minha Dalilah e pensando que era tão bom senti-la assim, pertinho de mim, quentinha e amorosa pois chegaria o dia em que eu olharia para aqueles olhinhos castanhos sapecas e eles estariam fixados no nada e sem luz, seu corpinho quente e malhavel estaria frio, rígido e sem vida. Bota masoquismo nisso, né?
Mas não, eu estava apenas tentando exercitar minha resistência a dor para o dia em que inevitavelmente nos separaríamos. De nada adiantou tanta previdência. Essa lembrança me assaltou sem misericórdia quando a tive nos braços para leva-la ao "Campinho Santo" , o cemitério de todos os meus bichinhos, lá na Chácara de Belém Novo. A verdade é que por mais que tentemos, nunca estaremos preparados para perder tal manancial de amor, nossa relação com eles é tão prazerosa e descomplicada que nos sequestra a razão de vez em quando nos fazendo achar que não precisamos de mais nada que não o seu amor! Nós os provemos de suas básicas necessidades que são a saciedade da sede, fome e medo e eles nos dão aquilo que sabem e podem oferecer em pagamento, dentro de suas imensas limitações físicas e intelectuais, que é a gratidão. Esta gratidão é entregue na forma de boa companhia, fidelidade, amor incondicional, enorme e nem sempre justificável admiração e respeito por nós. Por fim, chega a me constranger a imensa desproporção das trocas feitas com essas criaturinhas que fazem mais leve o fardo que é viver nossa humanidade.
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