quarta-feira, 16 de junho de 2010

Chuva / Der regen

Gosto muito de chuva.
Não existe nada mais relaxante que o suave barulho da chuva caindo sobre as plantas e o telhado; o delicioso perfume que se instala no ambiente imediatamente após o inicio de uma bela e repentina chuvarada no verão.
Sempre gostei de chuva e aprecio sua chegada mesmo quando ela vem de encontro aos meus interesses como da vez que resolvemos reformar o telhado de nossa casa.
Precisariamos de, pelo menos, uma semana sem chuva para dar andamento a reforma e, obviamente, desde o primeiro dia em que sairam as ultimas telhas velhas até o inicio da colocação das novas, não parou de chover um único dia. A noite na cama, mentalizava o meu rico sótão com todas aquelas velharias, os meus tesouros, minhas preciosas inutilidades, lá ao relento sendo enxarcados, me dava uma enorme aflição que, contraditóriamente, só era sublimada pelo cadenciado e constanate barulho da chuva tamborilando forte nas persianas fechadas de meu quarto.
Ao contario da maioria das pessoas, detesto banhos de chuva. Eles não me remetem a uma reminiscência da infancia, a um gozo pueril. Mesmo quando pequena, achava uma tolice, uma bobagem sem sentido ficar pulando e correndo na chuva fria. Para mim, aquilo era a própria imagem do desamparo. Uma boa chuva deve ser apreciada ao abrigo dela mesma, de preferencia a noite e confortavelmente acomodada. A chuva noturna é romantica, acolhedora, introspectiva e excelente parceria para pessoas que como eu, tem em si mesmas, sua mais apreciada companhia.
Dias chuvosos são mais divertidos porque subvertem a rotina
Dia de chuva é dia de pouco movimento no consultório, o telefone não toca e as horas se arrastam como se tivessem mais do que os seus 60 minutos de praxe. Quando chove, principalmente a noite, visito mentalmente todos meus afetos e os imagino abrigados e ressonando na paz dos justos, satisfeitos. Procuro não pensar naquelas criaturas que estão ao relento por necessidade ou imposição do ofício pois seria uma maneira de me autoflagelar sem que se produzisse qualquer benefício à eles e deste modo, apenas me subtraindo um de meus mais caros prazeres. Sentir pena dos menos afortunados não vai torna-los menos desafortunados. Não será o meu pesar que os fará menos necessitados e então não sei porque devo arruinar um raro e mágico momento, me confrangindo desse modo. Oh! Que monstro de insensibilidade!!!poderiam dizer de mim os menos avisados. Não, nada de egoísmos, apenas sei que o que podia fazer por eles já faço que é não lhes dar esmolas e sempre trata-los com dignidade, oferecer-lhes que minha solidariedade de forma eficiente e pratica e não permitir que se confunda com piedade.
Quando estava na escola, nas ultimas séries do primário, tinhamos todos os anos, o lançamento da "Campanha da Fraternidade". Nossa professora de música, Dona Anita, uma mulher alta, elegante e bonita para os seus quarenta e indefiníveis anos, nos ensinava o hino oficial da campanha. A música era lindíssima, parecia um acalanto, suave e melodioso mas a letra era um libelo de culpa e remorso e para piorar, por algo que nunca se fizera, ao menos eu não!
"Para mim, a chuva no telhado / É cantiga de ninar, / Mas o pobre, meu irmão
"Para ele a chuva fria, / Vai entrando em seu barraco / E faz lama pelo chão
"Como posso ser feliz? / Se ao pobre, meu irmão / Eu fechei o coração / Seu amor eu recusei.

"Para mim, o vento que assobia / É noturna melodia, / Mas o pobre, meu irmão........"

E assim ia, numa contrição pungente, constrangedora até para a criança que eu era na época.
Mas eu sobreviví. Superei a culpa que me queriam impingir por apreciar uma bela chuva no conforto - muito merecido - de meu lar.
Sou uma apreciadora de imagens. Gosto de observa-las, perscrutar o que elas refletem, o que falam ao meu espirito. Passo horas navengando por sites de imagens e fotografias , pinçando as mais simpáticas e tagarelas.. É como buscar por lembranças que não existem, mas que eu gostaria que tivessem existido. Ou, tentar ilustrar com outras figuras fragmentos de memória avoengos.
Durante algum tempo colecionei uma enorme quantidade de imagens que reproduziam temas com chuva e fiz um pequeno album. Algumas delas ilustram este textinho e outras mais, que sobreviveram a duas panes de meu computador, vou postar aqui abaixo. Faço com especial prazer por estar ouvindo, agora, o leve percurtir das gotas de chuva nos vidros de minha janela.
Sintam-nas





















































Um comentário:

Cláudio Osório disse...

Apreciadora e selecionadora de imagens. Cláudio

Minha "irmã" americana e minha paixão pelos EUA!

    Em 1971 eu implorei a meu pai que me deixasse participar do programa de intercâmbio cultural AFS, American Field Service, onde eu passa...