sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Vô Zeca

Tenho sentido tanto a falta de meu pai!
Nunca imaginei que fosse senti-la. Nós nunca tivemos uma convivência muito harmônica.

Pai e minha irmã indo para a aula. Nestas ocasiões passavamos em frente ao meu chalé e lá estava o Eng. Conrad esperando a moça.


Meu pai não era um sujeito muito efusivo em suas manifestações de apreço e sempre nos tratamos com uma certa cerimônia. As reprimendas, os sermões, os castigos vinham sempre da parte de minha mãe e bastava que meu pai fosse solicitado a intervir no assunto para que tudo se resolvesse imediatamente. Eu o amava, mas não sentia vontade de acarinha-lo como com minha mãe. Sempre fui muito carinhosa, beijoqueira, chameguenta mas apenas com ela. Minha mãe. Foi uma mulher muito bonita, culta, inteligente e bem humorada. Hoje é uma velhota adorável, do tipo que todo mundo gosta de conversar.
Quando eu era pequena, minha mãe era meu país, minha fortaleza, meu refúgio e meu pai era o exército que o provia. Na minha adolescência, meu pai se tornou mais fechado ainda e eu me rebelava com a forma paradoxal como ele dirigia minha vida, distante mas absolutamente presente em sua, para mim, tirania. Esta foto foi tirada para enviarmos ao programa de intercambio cultural American Field Service quando recebemos por um ano uma menina norte americana e posteriormente, eu iria para lá.
Era uma época em que minhas preocupações se resumiam às notas baixas na faculdade e a cor dos tenis que combinasse com o novo jeans. Meu pai me alcançava tudo. Nunca deixei de comer nada que quisesse, nunca deixei de fazer nada daquilo que pudesse e estivesse ao seu alcance mas ainda assim eu me lembro de te-lo odiado em certas ocasiões.


Ele me enlouquecia com seu cerco que, à meus olhos juvenis, parecia exacerbado. Eu imaginava que só seria completamente livre no dia que ele desaparecesse, pois mesmo adulta e morando longe, ainda sentia seus tentáculos me oprimindo, me sufocando.


Não é impressão o nosso aspecto pouco confortavel. Proximidade assim, só em fotos pousadas.
O milagre, a grande transformação se deu quando nasceram meus filhos. Meu pai se despiu daquelas roupas de tirano e virou o Vô Zeca.

Transformação em andamento I: "Quem, diabos, é este pequeno estranho?"
Nunca ouvi meu pai me chamar de outra maneira que não fosse por meu próprio nome, no entanto, aos meus filhos, os tratava por apelidos carinhosos ou diminutivos açucarados.
Ele próprio dizia que amava tanto os netos que chegava a doer.

Transformação em andamento II: " Mas não é que é bem engraçadinho este guri da K?"

A lembrança mais marcante que guardo de meu pai, me remete a uma época difícil para nós todos, quando ele esteve muito doente.

Transformação completada: Submissão total



'Pai, já é tarde, esse gurí tem que dormir!
Ah! Deixa o coitadinho brincar só mais um pouco!!!"
Ele caminhava com alguma dificuldade pois a pouco tempo colocara uma prótese na perna esquerda que amputara em decorrência de complicações da diabetes. Uma tarde fomos ao supermercado, meus pais e meus dois filhos.
Vô Zeca e os seus "Nêgos", postos sob suas asas protetoras.
Para agilizar as coisas peguei um carinho e fui fazendo o rancho para minha mãe que ficava mais para trás com meu pai e as crianças. Quando me dirigia ao caixa cheia de pressa, na entrada da loja, no hall onde ficam os stands de promoções, percebí se formara um aglomerado de gente que cantava, ria e batia palmas.

Me aproximei curiosa e para meu total espant o, vi no meio de uma roda de adultos e crianças , ninguém menos que meu pai dançando, meio desequilibrado com sua perna mecânica, a "Dança da Galinha Azul" para ganhar uma miniatura da ave que, pressionada, punha ovinhos azuis e brancos.

Ele nunca dançara uma musica comigo ou com ninguém que eu conhecesse.
Não me lembro de te-lo visto, nem ao menos uma vez, dançando com minha mãe. Nem sabia que ele dançava. E ele estava ali, dançando a "Dança da Galinha", pulando num pé só, com dificuldade, talvez dor, para satisfazer uma vontade da "Nêga", como ele chamava a minha filhota Betina.
Quando sinto saudade de meu pai, não sei se sinto saudade dele, realmente, ou do tempo que viví com ele, de um tempo de paz, de certezas.. Era um tempo em que nada me angustiava além dos fantasmas que eu própria criava. Era um tempo sem preocupações e onde o futuro não poderia ser menos que maravilhoso. Me sentia incompreendida mas não compreendia meu pai. Me sentia injustiçada e não via que era injusta com ele.
Hoje, meu filho não me entende. Diz que sou autoritária e distante. E eu que sempre me julguei excessivamente condescendente para com ele!
Acho que deve ser sempre assim pois desde que me lembro, ouço dizer que a gente só valoriza os pais quando os perde. Eu sempre valorizei meu pai, reconhecia suas virtudes e nunca faltei-lhe com o respeito (e as vezes que ousei tentar, fui exemplarmente justiçada) apenas não sabia como lidar com ele e talvez, ele comigo.
Sofro por não ter podido lhe dizer a tempo que o compreendo, que o perdôo pelas "injustiças" que não cometeu comigo, pela sua "ingerência" em minha vida que a orientou e pela sua "tirania" que me deu limites. Mas, é muito bom poder compreende-lo finalmente e ser grata as lembranças que ele me legou entre outros tantos bens materiais.
Espero que possa ser, um dia, entendida por meu filho antes que ele venha a lamentar não ter-me dito tudo aquilo que eu não disse ao meu pai.

Um comentário:

Unknown disse...

Muita, muita saudade do meu amado tiozinho!
Saudades!
Tio te amo para sempre!
Sissa

Minha "irmã" americana e minha paixão pelos EUA!

    Em 1971 eu implorei a meu pai que me deixasse participar do programa de intercâmbio cultural AFS, American Field Service, onde eu passa...