Minha casinha está semi-demolida, entregue a ação de vândalos.
foto de KpraetzelLadrões não deixaram, nem por 24 horas, os tapumes de madeira aglomerada que cobriam-lhe a ruína, certamente levando-os para construir seus barracos imundos. O proprietário pegou então, o madeirame do assoalho e das divisões internas dos quartos que estavam jogados no fundo do terreno e fez com ele uma grotesca cerca, meio improvisada, que aparece com as
cores das antigas paredes, creme e azul clarinho – como os tons das roupas da moça que morava alí, que eu cristalizei na memória.
foto de Kpraetzel Cada vez que passo pela casa olho-a envergonhada, com certo constrangimento. As paredes internas de minha casa, colocadas alí na rua, parecem peças de roupas íntimas escandalosamente expostas num varal à vista de todos, sem cuidados e sem pudor.
foto de Kpraetzel

Elas contam, mesmo sem intenção, detalhes dos interiores daquela casa, num ato de violência, de privacidade invadida, ultrajada.
Mas, como eu dizia, minha casa está ali, semi-demolida como um corpo morto e insepulto e
daqui a pouco já não estará mais; tudo não terá passado de lembranças e sonhos recorrentes.
Por pura auto-flagelação, fui dar uma olhada na casa do Eng. Conrad. Continua do mesmo jeito. Não, na verdade, está pior. Está mais escura e fantasmagórica que antes.
Passei bem devagarinho pela frente e como não haviam carros atrás de mim, dei marcha à ré e fiquei espiando de dentro do carro o seu pátio, eternamente sombrio. Não há um único local ensolarado dentro daqueles muros, onde arbustos cerrados escondem quase totalmente a fachada da casa, ficando apenas seu telhado a vista e mesmo assim, encoberto pelas imensas copas das arvores que, extremamente frondosas, ocupam toda a extensão do jardim, não fornecendo luz necessária à vida de outras criaturas verdes ou não.
foto de Kpraetzel
Um ônibus se aproximou do meu carro carro e tive que arrancar. Quando já ia saindo, ví um menino atravessar correndo o jardim, mas não me pareceu ser um morador. Estava muito apressado. Certamente, mais um aprendiz de vândalo, destes que entram em casas vazias para ver se acham alguma coisa que não perderam ou algo “que ninguém quer mais, mesmo”. A casa me pareceu desocupada, mas é só uma intuição, pois nada mudou para que se perceba isso uma vez que fechada e sem cuidados ela sempre esteve.Desde então, cada vez que volto do trabalho, desvio um pouco meu trajeto habitual e passo pela frente daquela casa. Diminuo muito a velocidade ou mesmo paro, quando não vem carros atras de mim. Fico ali, olhando e perscrutando suas feições, tentando ouvi-la, como fazia com minha casinha, mas ela é silenciosa, hermética, esconde-se atrás de sua vegetação como uma mulher muçulmana o faz com sua burka. É uma casa sem alma. Ela não me diz nada, ou eu não a posso ouvir.
Local no muro, onde estava fixada a placa de bronze com o nome do Eng. Conrad foto de Kpraetzel
Passou algum tempo até que eu conseguisse ver algum ser animado circulando por seus limites. Hoje, a tardinha, quando passava por ali, percebí um rapaz no interior da garagem, que estava com suas portas milagrosamente abertas em plena luz do dia. Vacilei um pouco mas parei o carro e fui até lá. Investida de meu mais simpático sorriso, me apresentei e expliquei ser uma arquiteta amadora, que apreciava muito o estilo daquela casa e gostaria de ter permissão para tirar algumas fotos. O cara me pareceu muito desconfiado, não mostrou os dentes e só baixou a guarda quando eu lhe entreguei um cartão profissional, com meu nome, cpf e endereço e disse-lhe que fazia isso por puro deleite, colecionava fotos de casas antigas e desocupadas, como um hobby qualquer.
Ele até sorriu quando eu disse-lhe que alguns malucos colecionavam selos, outros moedas e eu, gostava daquelas imagens. foto de KpraetzelTalvez o fato de eu ser vizinha - a casa do Eng. Conrad fica a umas duas ou três quadras de minha casinha e quatro ou cinco da casa onde moro - e ter escancarado minha identidade e residência, o tenha desarmado um pouco. Ele me disse que ia falar com os seus parentes e que depois eu aparecesse por ali para ver o que fora resolvido.
Bom, assim é que talvez, em breve, possa estar fotografando a casa do Eng. Conrad desde seu interior. Quem sabe quando eu entrar em seus dominios ela resolva se abrir um pouco e me contar da vida de seus moradores, vivos ou mortos; talvez permita que eu capture vestigios da sua historia, que eu não conheço, não procurei, nem inventei em sonhos. Ela apenas me atrai com seu mistério, com sua imensa tristeza. Quem sabe, lá dentro, eu consiga, enfim, escuta-la.
Vamos ver. É só esperar mais um pouquinho e nisso, esperar, eu sou muito boa.
2 comentários:
Saber esperar é uma grande virtude, né?
Beijocas,
Olá Prima,
Parabéns por seus textos! Gostei de ler sobre sua família e conhecer as fotos de sua linda mãe e sua avó Ruth que tanto a Coca comenta.
Fiquei curiosa a respeito da casa do Engenheiro Conrad! Tomara que você descubra algo interessante por lá! Um beijo e continue assim, um dia vamos publicar seu livro de memórias. Beijos da Diuza
Postar um comentário